quinta-feira, 28 de abril de 2011

Tucumã e o dia que virou noite


Vicente do Rego Monteiro, ilustração
para Légendes, Croyances, et Talismans des Indiens de l'Amazone (Paris, 1923).
Ouvi contar que houve um tempo, tempo em que o tempo não contava o tempo, em que os animais todos ainda não tinham chegado à terra, que tudo era diferente ... Neste tempo não havia noite! Dizem que era o tempo do começo do mundo... Talvez porque ninguém contasse as horas a noite vivia adormecida bem no fundo do rio. Vivia lá com Boiúna. A filha desta senhora, que era a cobra grande, de tanto querer, foi viver com um índio muito lindo de uma tribo que habitava as margens de outro rio. 
O jovem índio cheio de amores pela filha da Boiúna lhe trazia flores, imitava o canto dos pássaros, nadava como um boto e inventava estórias pra trazer a moça pros seus braços, na sua rede, mas ela não vinha. O índio que entendia de muita coisa, pois gostava muito de andar pelo mundo não entendi porque sua amada não queria dormir em sua rede. O moço forte foi ficando sem graça, tristonho e seus amigos não sabiam mais o que fazer para ajudá-lo. Um dia a moça bonita, filha da Boiúna, disse ao rapaz que o amava muito mas que só poderia dormir com ele na rede quando a noite chegasse ... Mas a noite não chegava nunca, ela estava adormecida no fundo do rio, lá com a cobra grande.
Os três amigos do índio que eram fortes, cheios de vontade e generosos queriam ajudar o companheiro que já andava sem forças e fraco de tanta tristeza. Eles perguntaram então, para a índia que não queria ir para os braços de seu amigo onde poderiam buscar a noite. Ela lhes contou que a noite há muito dormia nas profundezas do rio, que se eles fossem à casa de sua mãe Boiúna ela lhes entregaria a noite.
Animados eles seguiram pelo caminho indicado pela bela índia encontraram a margem do rio e foram seguindo, andando, andando, andando, como eram cheios força e vontade, não se cansaram e continuaram andando, andando, andando... Quando acharam que já haviam caminhado muito chamaram pela Boiúna:

_Boiúna, Boiúna, Boiúna! Gritava um.
_Temos notícias de sua filha! Gritava outro.
_Cobra grande sua filha tem um pedido!

Logo, a Boiúna saiu do fundo do rio e perguntou que gritaria era aquela.

_Onde está minha filha?

Os três índios contaram tudo à Boiúna, sobre a tristeza do moço, contaram que cada dia a sua filha estava sozinha numa rede e o companheiro dela na outra... Que a índia indicou o caminho até a casa de sua mãe para que eles buscassem a noite, pois só iria para os braços de seu índio quando o dia se tornasse noite.
Boiúna entendia pouco daquela conversa toda, porque ali onde ela vivia todos os índios conheciam o dia e a noite, então ela pensou que sua filha não deveria estar feliz num lugar onde só o sol brilhava o tempo todo.
Assim, a cobra grande entregou um caroço de tucumã bem fechado com cêra de abelha para um dos moços, uma cabaça fechada para outro e uma trança de cipó para o terceiro, e disse:
_Entreguem tudo à minha filha, a filha de Boiúna há de saber o que fazer com isso. Mas nem tentem abrir o Tucumã, quebrar a cabaça ou desfazer a trança de cipó.
Lá se foram de volta os três lindos índios cheios de força e de vontade pela margem do rio até chegarem na terra onde o sol brilhava o tempo todo.
No caminho um falou:

_Tenho sede, há de ter um bocado de água fresca nesta cabaça! 

E assim, bateu com a cabaça numa pedra pensando que se esta rachasse, eles poderiam beber da sua água. Mas, isso não aconteceu. Quando a cabaça se quebrou uma porção de bichos estranhos que eles não sabiam que nome tinham, saíram por todos os lados e foram se escondendo debaixo de folhas, de pedras, de troncos... Os três jovens índios que eram valentes se assustaram e correram dali, mas, por todo lado ouviam o rastejar de bichinhos estranhos se escondendo.
Continuaram o caminho e o outro disse:

_ Ouço barulhos que nunca ouvi aqui dentro deste caroço de tucumã!

Logo os três ficaram curiosos deixaram o tucumã na pedra quente até a cêra de abelha... O tucumã então se abriu e deixou escapar a noite com seus grilos e sapos que faziam barulho lá dentro... os sapos coaxavam e pulavam buscando um lugar, os grilos saltavam e, de repente ... Tudo escureceu. Os três índios se assustaram porque nunca tinham visto o escuro da noite e tiveram medo. Com medo, ficaram com raiva e brigaram colocando um a culpa no outro pois haviam desobedecido as recomendações da Boiúna, a cobra grande. 
A Noite Sai da Noz de Tucumã, 1921
Vicente do rego Monteiro

Já cansados de brigar correram pelo caminho que os levava de volta a sua casa. Quando tudo que era dia virou noite, quando o claro virou escuro, a linda índia foi para os braços de seu amado companheiro e lá ficaram os dois na rede. A índia que era esperta e conhecia a noite, sabia que tinha que fazer alguma coisa para que o dia voltasse depois, mas, ela só queria ficar ali na rede com seu companheiro, ouvindo os sapos e falando de seu amor para o índio que agora, estava feliz. A índia lhe contou que a noite guardava bichos de nomes diferentes que se escondiam de dia, mas, de noite saiam...que eram bichos rastejantes e que alguns, assustadores, poderiam fazer o índio mais forte dormir para sempre.
Preocupado com os amigos o valente índio, forte e cheio de vontade foi procurá-los, mas, sua índia só queria dormir. Ele correu pela noite, viu bichos estranhos saindo de debaixo das folhas, das pedras e dos troncos, ele não teve medo porque estava feliz e porque sua companheira já havia lhe contado tudo sobre sapos, grilos, aranhas, escorpiões, cobras e todos os bichos que rastejavam na noite. Enquanto ele corria todos dormiam. Até que ele encontrou os três amigos assustados. Eles então lhe contaram tudo o que houve, por onde andaram e como haviam desobedecido a Boiúna.
O Jovem índio tomou para si a trança de cipó dizendo aos amigos que se abrigassem e dormissem, que ele levaria a trança até sua companheira pois ela entendia tudo sobre os segredos de Boiúna e sobra a noite.
Quando o forte índio chegou à sua rede encontrou a bela índia dormindo tranqüila embalada pelo som dos grilos, dos sapos, ele então, com cuidado, a fez acordar de seu sono, lhe contou tudo que os três amigos passaram e fizeram, e assim, lhe entregou a trança de cipó.
A bela e sonolenta moça percebendo tudo tomou o cipó em suas mãos, desfez a trança separando dois fios muito longos e disse:

_É preciso separar a noite do dia para que não se misturem!

Então a filha de Boiúna enrolou um dos fios e pintou-o com tabatinga até que ficasse 
bem claro enfeitou com um pouco de urucum e falou:

_Este é Cajubin! Cajubin tu deves cantar sempre que o dia estiver chegando assim a noite poderá ir embora.

Enquanto falava soltava o fio que ia se transformando num pássaro que ninguém ali tinha visto antes. A ave saiu voando!
Feito isso, a bela índia que sabia dos segredos da noite, pegou o outro fio e pediu ao seu querido companheiro que fizesse uma fogueira. Ele fez. Então, ela enrolou bem o segundo fio que ela havia separado da trança do cipó que sua mãe Boiúna, a cobra grande, entregou a um dos amigos e, jogando as cinzas da fogueira bem em cima, disse:

_Este é o Inhambu que há de piar sempre que a noite estiver chegando! 

Enquanto ela falava soltava o fio que se desenrolou transformando-se na ave que saiu correndo e piando!
Os pássaros sabiam a hora que cada um deveria cantar, os índios aprenderam, com o som de cada pio, se a hora era do dia, ou se a hora era da noite e, assim, aprenderam a separar a noite do dia. A partir deste dia, o jovem casal toda noite se aconchegava na rede, no escuro da hora, juntinhos, aconchegadinhos, ouvindo os sapos, os grilos, abrigados, sem medo dos bichos que saiam, até que Cajubin cantasse anunciando uma nova manhã.

Tucumã





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