sexta-feira, 8 de abril de 2011

Og-Ti



Toquei minha moringa com muita vontade hoje, tanta, mas tanta, que ela soou como um coração batendo, aproximei meu ouvido e ouvi o barulho de um grande rio correndo, ouvia também as vozes de muita gente, então, entendi que era estória de gente e de água.
Vou contar do meu jeito a estória que a moringa guardava, a estória dos dois grandes ancestrais, a estória do monstro Og-Ti, a ave gigante.
Há muito tempo atrás, nos tempos antigos, nos tempos em que ainda não havia casas grandes, junto do rio Koka-ti viviam os Me-Bem-Ókre, toda a gente que era do fundo das águas. Nesses tempos esse povo ainda era manso, fraco, pequeno, quase não falava, quase não fazia nada. Eles choravam baixinho e andavam sem vontade. É que eles viviam aterrorizados, com muito medo de que, mais uma vez, a terrível Og-ti viesse voando pelos ares, lá de cima das rochas do rio, e pegasse com suas horríveis garras, mais um índio Me-bem-Ókre, um índio Caiapó.  Quando a ave gigante se aproximava, seus gritos de águia eram ouvidos por todos os cantos, rio abaixo, rio acima, de um lado e do outro lado. O povo sentia que não podia fazer nada. Eles viam o monstro terrível carregando para as nuvens as suas irmãs, seus filhos e seus sobrinhos, um por um, mulheres e homens, índio acabado de nascer ou índio muito vivido era levado. Alguns índios procuravam os colares, os enfeites da irmã que havia sido levada, os objetos de cortiça do sobrinho... e, nada!
Um dia, a ameaçadora ave de rapina levou também a tia dos dois poderosos ancestrais dos Caiapó, que era a irmã de seu pai. Os pequenos irmãos gêmeos, os indiozinhos Kukrüt-kakó  e Ngo-kon-ngrí eram muito meninos ainda quando seu pai resolveu criá-los debaixo da água para que crescessem com as forças necessárias vindas dos impulsos recebidos das águas do rio Koka-ti. O pai dos gêmeos fez uma casa muito forte com troncos de madeira, cortiça de jatobá e com todas as fendas muito bem cobertas com resina. A casa era presa a um cipó para que o pai pudesse puxá-la para fora da água de vez em quando a fim de ver se iam crescendo bem. De cinco em cinco dias a mãe lhes visitava, conversava com eles e lhes trazia beiju de mandioca. Os meninos irmãos foram crescendo, sempre maiores e mais fortes, crescendo como gigantes. Nenhum outro índio da aldeia sabia nada, nada mesmo, a respeito de Kukrüt-kakó, o osso de tapir, nem de Ngo-kon-ngrí, o cabeça pequena, que tiveram sua tia levada pela temida Og-ti.
O tempo passou, passou, as águas correram, correram. Muitas luas se levantaram no céu até que os meninos gêmeos tornaram-se homens, grandes homens, tão grandes que quando seu pai e sua mãe resolveram deixar que saíssem da água e que era hora de levá-los à aldeia, todo o povo se assustou. Nunca a gente Me-bem-Ókre tinha visto homens tão grandes, tão fortes!
O pai de Kukrüt-kakó, o osso de tapir e de Ngo-kon-ngrí, o cabeça pequena, logo lhes trouxe troncos de buriti para que sua casa fosse construída e também lhes contou tudo sobre a Og-ti e de como ela tinha capturado vários índios de sua tribo inclusive sua irmã, a tia deles.
 Os dois irmãos gigantes perceberam que precisariam de uma casa muito grande e construíram a primeira Ngob, a grande casa das aldeias Caiapós. Nesta casa eles trabalhavam muito, todo dia, confeccionando as primeiras armas pesadas, as bordunas, as primeiras lanças com ponta de osso de jaguar e os grandes arcos Caiapós. Logo o povo Me-bem-Ókre, que no início teve medo dos irmãos gigantes, foi aprendendo com Kukrüt-kakó, o osso de tapir e de Ngo-kon-ngrí o cabeça pequena, a fazer e a manejar essas novas armas. Os irmãos que eram muito velozes e corriam mais rápido que as emas nos campos do Araguaia, que pegavam a caça inteira como se estivessem brincando, iam fazendo e ensinando sua gente que seguia aprendendo, treinando e assim, tornarando-se um povo mais forte e valente.
Um dia Nheti um monstro que comia gente, veio e comeu o sobrinho de  Kukrüt-kakó, o osso de tapir e de Ngo-kon-ngrí o cabeça pequena; eles ficaram muito tristes e com muita raiva por isso choraram, soluçaram e gritaram como nunca o povo de sua tribo havia visto. Neste dia todo o povo Me-bem-Ókre, chorou, soluçou e gritou sentindo a dor dos gêmeos como se fosse a dor deles.
Kukrüt-kakó, e Ngo-kon-ngrí sentiram que era chegada a hora de partir em busca da grande ave, Og-ti, e com toda a força e coragem que receberam das águas do Koki-ti poderiam vingar a morte da tia e deixar que seu povo antes manso, seguisse e vivesse com ânimo, com vontade e valentia. 
Lá pelas fronteiras do grande cerrado, onde as rochas se amontoavam acima do rio, havia uma enorme árvore da qual nenhum índio Me-bem-Ókre teve antes coragem de se aproximar. Os dois irmãos viram que sobre os ramos desta grande árvore, estava o ninho da águia gigante. Og-ti tinha garras que pareciam poderosos troncos de árvores, sua boca era profunda como a garganta de um tapir, suas plumas lembravam folhas de bananeiras e tinham olhos tão grandes que causavam terror. Os dois grandes ancestrais do povo Me-bem-Ókre, os gigantes heróis se aproximaram poderosos, com a vontade de libertar sua gente do medo, armados com o machado e a lança com ponta feita de um grande osso de jaguar. Foi lá em baixo da árvore que viram as ossadas de todos aqueles da sua tribo a quem Og-ti havia devorado, encontraram os objetos de cortiça, os enfeites de madrepérola e avistaram acima, no grande ninho, a terrível ave gigante. 
Ali, eles que eram tão inteligentes quanto fortes resolveram dar uma canseira em Og-ti, espertos, rapidamente construíram uma choça muito forte embaixo dos ramos da grande árvore e a cobriram com folhas de bananeiras. Os irmãos tinham feito cada um, um instrumento que soava como uma corneta, então, dali do esconderijo, sopram a corneta... Og-ti assustada, voa para baixo na direção dos sons e com toda a sua fúria procura os intrusos e nada encontra, pois assim que ela se aproxima eles fazem calar o som. Og-ti retorna ao ninho voando para cima. Mais uma vez ouve-se o som estridente das cornetas, violenta, Og-ti volta tentando atacar, mas, novamente o som desaparece. Os irmãos fazem repetir tantas vezes esse truque que o monstro fica completamente esgotado, enraivecido e frustrado. Neste momento os astutos gêmeos, os heróis, os dois grandes ancestrais do povo Me-bem-Ókre saem do esconderijo e enquanto um ataca e luta com seu machado contra Og-ti, a ave gigante, o outro lhe crava a lança com ponta de osso de jaguar. Og-ti cai vencida sobra a terra. Na luta Og-ti perde todas as suas plumas. Kukrüt-kakó, o osso de tapir e Ngo-kon-ngrí o cabeça pequena, enchem de ar seus pulmões de homens gigantes e sopram todas as penas espalhando-as em todas as direções do vento. Assim, toda esta penugem transformou-se em pássaros de todas as espécies de acordo com a cor e o tamanho das penas. Dizem que as mais pequeninas transformaram-se em beija-flores.

Aprendi esta estória no livro de Anton Lukesh, um pesquisador alemão que passou algum tempo aprendendo “O mito e a vida dos índios Caiapós”, este livro foi traduzido e editado pela Ed. da Universidade de São Paulo em 1976. Comprei este livro num sebo em São Paulo há mais de vinte anos, com dedicatória do autor "à Sua excelência Embaixador do Brasil na Áustria...de Viena em 19 de maio de 1978". Anton Lukesh traduz a estória contada por um índio Caiapó e, re-conta no final da estória, antes de fazer seus comentários de pesquisador: “Nós os Caiapós [de hoje] jamais  vimos a águia-gigante. No entanto, foi um dos homens bem velhos que contou ao seu sobrinho, filho de sua irmã, a estória da ave grande. Posteriormente, o sobrinho transmitiu-a para outras pessoas que, por sua vez passaram-na para seus sobrinhos, até que todos chegaram a conhecê-la, pois, quando cresceram, os sobrinhos e filhos encarregaram-se de contar a estória. E, destarte, também nós contamos para nossos sobrinho e filhos a estória da ave grande e dos dois gigantes, nossos ancestrais, para que jamais fique esquecido pelo nosso povo. E assim termina também a minha estória".

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